Impactos da Educação a Distância no ensino básico

Por 10 de março de 2019Brasil, Educação

A Educação a Distância (EAD) é regulamentada nas Instituições de Ensino Superior (IES) brasileiras desde 2017. De acordo com o decreto 9057/2017, publicado pelo Ministério da Educação (MEC), a modalidade proporciona uma maior oferta de cursos de graduação e pós-graduação. Dados do Censo de Educação Superior de 2016 apontam que 33% dos universitários entram no ensino através do EAD.

Entretanto, pensa-se em uma proposta para ampliar esse modelo de ensino. O presidente recém-eleito Jair Bolsonaro (PSL), juntamente com sua equipe, pretendem levar a Educação a Distância para o ensino fundamental e médio, sobretudo, em áreas com menor desenvolvimento econômico e social. A ideia, segundo o plano de governo, é baratear os custos da educação pública e incentivar o ensino familiar (homeschooling) de crianças e adolescentes.

Mas afinal, essa medida é possível nas atuais condições de infraestrutura do Brasil? Como a educação dos jovens seria modificada?

A socialização como um problema ignorado

Assim como todo o universo de ensino de disciplinas presente na vida escolar de crianças e adolescentes, especialistas afirmam que a convivência com os colegas e professores é fundamental para o desenvolvimento desses jovens em áreas como cidadania e ética. Sem esse contato, a educação corre o risco de ficar robotizada, com um estímulo menor ao pensamento de questões que envolvem o meio social.

Para Maria das Graças Araújo, doutora em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará (UFC), a EAD no ensino básico seria prejudicial ao processo de socialização dos estudantes. “O convívio entre as crianças e adolescentes seria afetado consideravelmente. O contato entre as pessoas de forma presencial é indispensável para a humanização de cada ser, uma vez que a educação não deve ser pensada apenas como transmissão de conhecimentos, mas acima de tudo de partilha de experiências, de valores e atitudes”, explica.

A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) grafa no parágrafo 4º do artigo 32, que “o Ensino Fundamental será presencial, sendo o ensino a distância utilizado como complementação da aprendizagem ou em situações emergenciais”. Isso reforça a importância da convivência no processo de formação de crianças e adolescentes (Foto: Burger/Phane)

A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) grafa no parágrafo 4º do artigo 32 que “o Ensino Fundamental será presencial, sendo o ensino a distância utilizado como complementação da aprendizagem ou em situações emergenciais”. Isso reforça a importância da convivência no processo de formação de crianças e adolescentes (Foto: Burger/Phane)

Além disso, o processo de disciplina em uma fase de formação pode ser mais complicado e necessita de uma orientação para não prejudicar a busca do conhecimento. Para Lis de Maria, coordenadora do Laboratório de Pesquisa Multimeios da Faculdade de Educação da UFC, “qualquer atividade didático-pedagógica realizada na modalidade EAD perpassa por um processo de autonomia, nem sempre construída e consolidada durante os processos de escolarização dos educandos. A falta dessa autonomia pode ocasionar impactos como o desinteresse pelos estudos e corrobora fortemente para o aumento nas taxas de evasão, uma vez que os alunos podem se sentir perdidos, sozinhos, sem condução e orientação didática”, afirma.

A infraestrutura permite esse modelo?

Se por um lado, a Educação a Distância ajuda a levar o ensino até comunidades distantes ou isoladas (como em algumas regiões da Amazônia), por outro, estender esse método para todo o país necessita de uma estrutura mais consolidada, com eletricidade e um acesso à internet mais democrático e barato.

De acordo com Lis de Maria, a implementação da oferta de EAD perpassa, prioritariamente, pela garantia das condições estruturais nas instituições de ensino. “O acesso à condições físicas adequadas seria o primeiro aspecto a ser considerado. O segundo seria trabalhar com a formação dos professores que pudessem articular elementos dos processos de inclusão digital no ensino a distância. Sabe-se que, em razão da geografia brasileira, é ilusório pensar em único modelo para as diversas áreas do território nacional. A implementação desta modalidade requer um olhar cuidadoso sobre as reais necessidades da população brasileira”, destaca.

Para a ampliação da Educação a Distância, seria necessário uma internet com mais qualidade, melhor custo-benefício e velocidade. Entretanto, cerca de 35,3% da população brasileira não têm acesso a internet e, dessa porcentagem, 70% pertencem a classes mais pobres. Os dados são, respectivamente, das pesquisas da Pnad C de 2016 e da TIC Domicílios de 2017 (Foto: Reprodução/Instagram)

Para a ampliação da Educação a Distância, seria necessário uma internet com mais qualidade, melhor custo-benefício e velocidade. Entretanto, cerca de 35,3% da população brasileira não têm acesso a internet e, dessa porcentagem, 70% pertencem a classes mais pobres. Os dados são, respectivamente, das pesquisas da Pnad C de 2016 e da TIC Domicílios de 2017 (Foto: Reprodução/Instagram)

Mauro Pequeno, diretor do Instituto UFC Virtual, explica que esse método de ensino também não pode ser aplicado da noite para o dia. “Eu acredito que os professores, as escolas e os alunos não estão preparados. Não se pode somente dar uma canetada e dizer que ‘a partir de amanhã vai ter’. Não funciona assim. Tem que haver um momento de preparação para não ter um impacto grande transformando tudo em Educação a Distância”, comenta.

Como fica para os professores?

Assim como a ampliação do EAD modificaria a rotina dos alunos, para os professores, essa provável realidade os submetem a uma readequação de suas propostas de ensino.  A doutora em educação Maria das Graças Araújo entende que a mudança reforçaria os riscos que a ampliação do modelo pode causar. “Corre-se o risco de o professor se tornar um mero monitor do processo de ensino, ao executar apenas as tarefas prontas que a estrutura do ensino propor”, enfatiza.

Já no ambiente universitário, a mudança ocorreria na especialização dos docentes. Mauro Pequeno explica que para o ensino médio, tem que introduzir nas licenciaturas uma formação para os professores. “Porque os que estão sendo formados atualmente não têm esse viés de Educação a Distância. Então, acredito que pode haver um reflexo nas licenciaturas, na questão de disciplinas específicas, a fim de preparar os futuros professores para essa nova realidade”, afirma.

De toda forma, entende-se que a EAD é importante para levar o ensino a um público maior, proporcionando uma melhor adesão às IES. Entretanto, dentro do ensino básico, essa proposta traz carências à etapas de formação que não se restringem somente as disciplinas. A formação presencial é fundamental para o desenvolvimento dos cidadãos.

 

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